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Zé Ramalho - A Peleja do Diabo com o Dono do Céu (1979)

O texto abaixo foi extraído do blog Caverna do Som:

Antes que alguém estranhe, não, a Caverna do Som não mudou de foco. Continua a ser um blog de rock, com ênfase em rock clássico, progressivo, metal e hard rock. Por que então esse disco está aqui? Essa pergunta tem três respostas.

Primeiramente, foi um pedido de uma visitante chamada Priscila. E este blog tem como política atender, na medida do possível os pedidos de visitantes, especialmente quando são representantes do sexo ideal - chamar mulher de "sexo oposto" sempre me pareceu coisa de quem não aprecia.

Segundamente porque o disco é bom à beça. Ponto.

Terceiramente porque ele permite levantar umas indagações interessantes sobre o que seria "rock brasileiro". Seria só rock cantado em português ou uma música que juntasse elementos do rock com sonoridades brasileiras? Para quem começou a ouvir música antes de 1980, falar em rock brasileiro trazia imediatamente à idéia o nome de Raul Seixas, roqueiro até a medula e que sempre cultivou nervosa distância dos tropicalistas. Isso não o impediu de fazer músicas sertanejas ("Medo da Chuva" e "Trem das Sete") e até emboladas ("Os Números"), não muito distante das propostas dos tropicalistas. Essa ponte, a meu ver, fora aberta por Gilberto Gil ao regravar com arranjo roqueiro em seus segundo disco o baião "Procissão", que constava de seu trabalho anterior.

Nos anos 70, embora houvesse grupos de rock que só replicavam fórmulas importadas, essa fusão explodiu em trabalhos tremendamente criativos. Sá, Rodrix e Guarabyra (qualquer dia eu boto aqui) eram roqueiros e brasileiros, criando até a expressão rock rural para definir esse som híbrido. Os mineiros do Clube da Esquina iam muito além dos Beatles em sua influência e misturavam o rock com as raízes de sua música num resultado notável - "Um Girassol da Cor de seu Cabelo" cabe em qualquer disco de progressivo.

A meu ver, essa fusão chegou ao auge com os nordestinos, que não viam nenhum problema em juntar a viola com a guitarra. Daí um dos melhores hard rocks brasileiros da época ser "Galos, Noites e Quintais", do fanho Belchior. Ou a psicodélia pesada de "A Dança das Borboletas", parceria de Zé Ramalho e Alceu Valença, gravada por aquele com uma guitarra doida de Sérgio Dias gravada em vários canais diferentes. Daí não ser estranha a presença dos sintetizadores de Patrick Moraz, suíço que tocou com o Yes, no primeiro disco solo de Zé. Esse disco aqui talvez seja até menos roqueiro, mas só o arranjo de "Jardim das Acácias" vale o download.

Aí chegou a minha geração. Um bando de mauricinhos da Zona Sul carioca, dos Jardins Paulistas e, pior ainda, da elite brasiliense, que, sob influência da ideologia punk, via tudo que fosse brasileiro como coisa de velho ou de hippie. Faziam uma new wavezinha chocha e pretensiosa, simplesmente cantada em português. Mudasse o idioma, passaria por new wavezinha chocha e pretensiosa de qualquer outro lugar. Só descobriram que viviam num país musicalmente rico quando seus ídolos como David Byrne e Arno Lindsey, disseram isso. Até que veio um nordestino (de novo eles) e retomou, com um pouquinho mais de marketing, o que seus conterrâneos já faziam na década anterior. Era Chico Science, e aí a coisa voltou a ficar um pouquinho divertida.

Pra baixar o disco acesse: http://cavernadosom.blogspot.com

CAIO MANCINI