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WATCHMEN - ALAN MOORE / DAVE GIBBONS (1985)

"Vocês não entenderam. Não sou eu que estou preso aqui com vocês. Vocês estão presos comigo"

Se você acha que tem opinião formada sobre hqs de super-heróis (contra ou a favor) e nunca leu Watchmen, está completamente por fora. É bem possível que seja olhado com estranheza se não captar alguma referência matreira à série escrita por Alan Moore e desenhada por Dave Gibbons em 1985.
A idéia de Watchmen é imaginar como seria o mundo se realmente tivessem existido super-heróis. Com essa premissa, acaba fazendo uma ácida crítica dos anos da Guerra Fria. Alan Moore, com seu detalhismo obsessivo e ironia afiada em esmeril, cria esse mundo mostrando as conseqüências sociais, políticas e até tecnológicas dos heróis.
Os personagens de Watchmen são falíveis, muito falíveis. Rorschach é paranóico e esquizofrênico. Há duas personagens com o nome Espectral, mãe e filha. A velha se apraz em folhear catecismos à la Carlos Zéfiro feitos sobre ela quando era jovem. A filha faz estilo de rebelde, mas gosta da farra de bater em bandido. O segundo Coruja é um otimista que broxa quando não está fantasiado. Alguns, como o Comediante (que morre no começo da história, dando o ponto de partida para a trama), aceitam o papel de ir para a guerra, mas isso não acontece como ocorreu com os super-heróis da Marvel no extinto O Conflito do Vietnã. O Comediante tinha prazer em dar porrada, em puxar fundo o gatilho de uma metralhadora e esquecer o dedo lá, em estuprar aldeãs vietnamitas.
Foi a primeira história "séria" em quadrinhos em que se pode ver os super-heróis tomando uma cervejinha e falando mal uns dos outros e dos bandidos que espancam. Mas os dois personagens mais fascinantes da trama são o Doutor Manhattan e Ozymandias, o poder infinito e a egolatria de fins que justificam os meios. Ozymandias forjou sua personalidade espelhado nos faraós e nos grandes conquistadores da antigüidade. Mannhattan, forjado pelo átomo, tem uma visão cosmológica própria, sem lugar para distinções tão mundanas como passado, presente e futuro. Para ele, tudo é um contínuo e o fato de alguém estar vivo ou morto não importa, já que ambos os corpos são formados pela "mesma quantidade de partículas".
Watchmen não é uma série para ler uma vez só. Exatamente pela quantidade de detalhes. Na primeira leitura a gente deixa de perceber muita coisa. Alguns fragmentos de diálogo ou detalhes de cena podem ser mais esclarecedores do que se imagina de início. Um mapa-múndi casualmente exibido em uma cena sugere que o Brasil teria anexado a Argentina e o Uruguai, embora tivesse entregue uma enorme fatia da Amazônia. O tema do holocausto nuclear é onipresente, e a idéia que embasa a arquitetura da história parece ter saído direto da música "A Paz", de Gilberto Gil. Não deixe de ler com muita atenção os textos publicados nos finais das histórias. Por mais insignificantes que pareçam, eles trazem chaves para entender melhor o que vem depois. Aliás, em Watchmen nenhum detalhe é insignificante. Num gibi do Monstro do Pântano publicado originalmente em 1984 (traduzido aqui em Superamigos 33), Moore escreveu que "a coincidência é o fio secreto que amarra o mundo". Em Watchmen, ele transformou isso em técnica narrativa.
Apesar de o final ser deixado em aberto, não significa que seja necessária uma continuação. Há anos o pessoal tem cobrado de Alan Moore que faça uma continuação de Watchmen. Talvez uma série dos Minutemen, os heróis dos anos 40. Há anos, Moore solenemente se recusa a fazer isso. Nunca tinha convencido muito, até que Frank Miller, em sua pífia continuação do Cavaleiro das Trevas, deu os argumentos definitivos para ele prometer seriamente que não vai não fazer isso e a gente poder acreditar seriamente que ele não pretende fazer.

Fonte: Marca Diabo