|
A Plebe não morreu, mas continua rude, pelo menos no discurso contra a burguesia dominante. Em clima de lançamento do seu novo disco de inéditas, R Ao Contrário, lançado junto da revista Outra Coisa e vendido em bancas, o vocalista e guitarrista Philippe Seabra falau ao e-zine Punknet. Confira a entrevista:

1) A febre das festas "Ploc80" (RJ) e "Trash 80" (SP) aliada ao revival de bandas dos anos 80 como a Blitz e do sucesso de bandas tributo (como Perdidos na Selva), deixou um clima de desconfiança no ar, de oportunismo barato. Onde a Plebe Rude se encaixa neste cenário?
Philippe - Odeio cheiro de mofo. Não há futuro no passado. Não é que eu rejeite as nossas origens, mas a renovação dentro da Plebe, em termos musicais, criativas e ideológicas são tantas, que não quero ficar atrelado a uma imagem do que foi, mas sim deixar no ar a pergunta: como será? Respondendo a pergunta, não nos encaixamos. Quando estava nos anos 80s, queria logo que passasse: ditadura, roupas horríveis, pouca informação, inflação, repressão. Porra, não dá prá ter saudade disso.
2) As letras do novo disco continuam questionadoras e até mesmo pessimistas em relação ao futuro, mas a sonoridade parece mais pop - para não dizer "comercialmente acessível". Afinal, a Plebe ainda é rude?
Philippe - Gozado, não me parece muito pop. A percepção de cada um varia, a gente ouve cada interpretação para nosso som! Somos rudes? Sim. Mas não somos burros, nem trogloditas. Diria que temos uma rudêz (existe essa palavra?) intelectual, he he he.
3) Após a dissolução da banda original, quando André voltou pra Brasília e Philippe foi para Nova Iorque, marcou também uma lacuna no rock brasileiro. A partir dali vivemos uma fase horrível com sertanejos, pagodeiros, cantoras "infantis" (Xuxa, Angélica, etc). Hoje as atenções são divididas também e principalmente com funkeiros, rappers e DJs de música eletrônica (verdadeiros pop stars). Para vocês, o momento atual é diferente ou mudaram apenas os personagens? Onde está a Plebe no meio disso tudo?
Philippe - Mudaram apenas os personagens. A mídia adora criar e ter controle de seus astros. Quanto mais players, melhor! E a Plebe no meio mandando ver, com nosso som, sem agressões ou ofensas alheias. O Jander sempre falava, e eu acho legal isso: ame ou odeie, mas não nos comprometa!
4) Ainda sobre aquela fase, comentava-se que "o André X saiu da Rock It por que passou num concurso público em Brasília". Esse boato deixou todo mundo intrigado por que o selo que ele mantinha com o Dado Villa Lobos era um dos ícones da independência perante o mercado fonográfico. André, agora na era do mp3 e dos vídeos na internet, como você faria se retomasse o projeto do selo? O que seria diferente?
André X - Totalmente! Iria para outro meio, outros formatos. Acho que o que o Philippe está fazendo junto com o Sr. F resume tudo. É por aí
5) Philippe, nos últimos anos você se dedicou bastante a carreira de produtor musical. Não foram poucas as bandas que gravaram contigo, e de estilos bem variados. Gostaria que você citasse algumas boas experiências atrás da mesa de som e como isso se refletiu na gravação de "R ao Contrário".
Philippe - É muito legal poder participar no desenvolvimento de certas bandas, trabalhando nos bastidores. Mas não posso fornecer a faísca nem o conceito. Isso as bandas tem que ter. Minha função é viabilizar a transposição disso para o CD e tentar maximizar as canções, e consequentemente, o repertório. Mas não no âmbito comercial. A música tem que ter a letra afiada, o arranjo perfeito, a pegada certa e por fim, o timbre próprio. A canção tem que estar perfeita dentro dos moldes e proposta da banda, não para o que o "mercado" pede. Uma vez que a banda encontra sua cara e isso é passado ao público via CD e show de maneira honesta e forte, o resto fica fácil. Sou um pouco romântico nesse aspecto; a canção sempre em primeiro lugar.
Já trabalho com produção há muito tempo e sempre estou estudando e pesquisando novas maneiras de capatacao de microfone. O meu estúdio vive sendo "upgraded" com equipamento novo, mas isso tudo não faz a mínima diferença se a canção não estiver no lugar. E mais importante, que a banda seja boa ao vivo. Parece-me que o formato CD esta virando mais um cartão de visitas do que qualquer outra coisa, então mais do que nunca um show no mínimo memorável é fundamental.
A produção do "R" ao Contrário deu muito trabalho, mas estamos todos muito felizes com o resultado. Não gosto da palavra "sonoridade" quando se trabalha num disco. Uso mais o termo "atitude", pois para mim a canção sempre estará acima da timbragem. A preocupação excessiva pela "sonoridade" pode travar um disco num conceito pré estabelecido, e nem sempre isso funciona. O que me importa mesmo é postura, pegada. Tudo isso estando certo, facilita muito meu trabalho. Aí sim, me preocupo, e muito, com os timbres. Microfonação é tudo, e aliada a uma boa pegada, é aí que a magia se completa. É um processo longo que começa com a pre-produção do repertório, sem dúvida o momento mais importante de uma gravação. Atualmente estou mixando o disco da banda Los Porongas, do Acre.
6) No dvd "Botinada", que conta a história do punk no Brasil, a Plebe marca presença com a música "Sexo e Karatê". No entanto o foco do movimento é mais na São Paulo de bandas como Cólera e Inocentes - cujo vocalista Clemente agora canta e toca na Plebe. Vocês ousariam dizer que, ainda hoje, a Plebe é uma banda realmente punk???
Philippe - Não. A gente bebeu muito na fonte punk, mas no punk original, de 1977. Bebemos mais ainda do pós-punk, a evolução natural do punk, com mais musicalidade e abrangência de estilos. O punk-SP teve outras influências, vindas principalmente da segunda onda punk, que nós nunca ouvimos, como Exploited, GBH, Discharge e outros. Mas a vontade de fazer algo diferente, de quebrar barreiras nos une. Respeito mútuo é o que temos. E ter o Clemente na banda é um sonho!
7) A cena independente vem crescendo ano a ano, mesmo com tanta falta de apoio público e privado. São poucos os festivais que contam com grandes patrocinadores - a exceção de Abril Pro Rock, Mada e Porão do Rock - e as centenas de bandas continuam tocando em pequenos bares e clubes. Vocês acompanham de perto esta movimentação? Vêem algum progresso nela? De quais bandas under vocês gostam?
Philippe - Estamos quase lá, me referindo ao movimento independente underground. Temos boas bandas, uma excelente distribuidora, os festivais, o público. Falta só uma peça da equação: a mídia. Infelizmente, uma peça fundamental. Não temos ainda rádios, tvs e meios de mostrar isso a um público maior. Mas chegaremos lá!
8) Quando o Lobão decidiu ir na contramão e fazer da banca de jornal a sua loja de discos, vendendo CD através de revista, muitos acharam que não dariam certo. O que vocês acham desta iniciativa? O que levou vocês a esta experiência inédita?
Philippe - Ele errou ao contrário, como cantamos no CD. Ele descobriu outro jeito de fazer, reverteu o processo, quebrou o paradigma, a despeito de opiniões contrárias. Que venham outros Lobões.
9) Religião e fé são temas recorrentes neste novo álbum. Percebe-se isso em Mero Plebeu ("as lágrimas não vão me converter // a cachaça para o santo já evaporou // assim como a fé"), Katarina ("seduzidos pela luz // oprimidos pela cruz"), O Que se Faz ("às vezes só do inferno é que se vê o céu") e na faixa título. O que incomoda vocês? A igreja de Bento XVI? Os bispos e pastores eleitos deputados e senadores?
Philippe - A idiotice de quem segue esses líderes. A falta de pensar por si próprio. A necessidade de sentir culpa e de culpar os outros.
10) E por fim, como não poderia deixar de ser: vocês realmente votam em branco?
Philippe - Tive que votar para governador do DF, não havia opção! Mas para os outros cargos, fiz minha pesquisa e achei candidatos compatíveis com minha visão. Tomara que, aqueles que foram eleitos, cumpram com o que prometeram!
Fonte: Punknet / Entrevista por: Pedro De Luna
|