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| O Evangelho dos Fetiches Sexuais |
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![]() Sai nova tradução de Crash, em que Ballard já previa, nos anos 70, o fim da sociedade do espetáculo
'Começou entre nós uma relação amorosa tão íntima e tão urgente que raramente passamos uma semana sem nos ver. Percebo que ela tem, na minha presença, sentimentos semelhantes aos meus, difíceis de descrever. Lembro-me de um dia em que passeávamos de carro, em alta velocidade. Atropelei uma ciclista jovem e bela, cujo pescoço quase foi arrancado pelas rodas. Contemplamos a morta por um bom tempo. O horror e o desespero que exalavam aquelas carnes, em parte repugnantes, em parte delicadas, recordam o sentimento dos nossos primeiros romances.' O trecho, evocando um acidente automobilístico, uma sexualidade estranha e o senso de cumplicidade entre o horror e a beleza, parece o J.G. Ballard de Crash. Mas é um excerto d'A História do Olho, de Georges Bataille (1928). O escritor inglês e o francês seguem à risca a receita de Lautréamont para a beleza: 'O encontro fortuito entre um guarda-chuva e uma máquina de escrever sobre uma mesa de dissecação.' No caso de Crash, romance de 1973 ora republicado no Brasil sob nova tradução (de José Geraldo Couto, excelente; 240 págs., R$ 42, Companhia das Letras), os encontros nem são tão fortuitos assim - há acidentes automobilísticos casuais, e há os provocados. A trama, sabe bem o leitor que assistiu ao longa de David Cronemberg (1996), tem, como no romance de Bataille, um casal no eixo de estranhas experiências. O narrador, um certo diretor de cinema publicitário também chamado Ballard, leva uma vida leviana e insípida ao lado da mulher, Catherine, dona de uma agência turística. Ambos usam seus casos extraconjugais para aquecer o casamento certinho: 'Muitas vezes eu conseguia adivinhar o nome do seu último amante antes que ela o revelasse no clímax de nossos atos sexuais. Esse era um jogo que eu e ela precisávamos jogar', relembra o publicitário Ballard, no leito do hospital para onde é levado após o acidente automobilístico que mudará para sempre sua vida. 'Houve ocasiões em que eu senti que aqueles casos só aconteciam para fornecer a matéria-prima dos nossos jogos sexuais.' Mas não é com a mulher que Ballard vai formar o eixo da narrativa, e sim com um tal de Vaughan. O acidente em que Ballard bate de frente com o carro de outro médico, matando-o instantaneamente, revelará para o publicitário uma nova sexualidade. Ele passa a ser seguido por Vaughan, um médico que, após quase morrer em um desastre de automóvel, fica obcecado por batidas e afins. A partir da amizade entre os dois, o autor desfilará, com imensas elegância e riqueza de detalhes, uma espiral de analogias estilizadas a partir da metáfora matriz: o choque entre dois corpos de metal é o único encontro possível entre os anestesiados corpos do século 20. 'Por conta dos lugares-comuns da vida cotidiana, com seus dramas amortecidos, toda a minha competência em lidar com o sofrimento físico havia ficado por muito tempo embotada ou esquecida', reflete o publicitário. 'A trombada era a única experiência real que eu tinha em muitas anos. Pela primeira vez eu me confrontava fisicamente com meu próprio corpo.' Sem alimentar muito adiante a paráfrase do romance, pode-se contar que, em busca de um acidente apoteótico envolvendo a atriz Elizabeth Taylor (Vaughan é fascinado pela reconstrução artística de desastres famosos, como os que vitimaram o ator James Dean, o pintor Jackson Pollock ou o escritor Albert Camus), Ballard e seu amigo filmam crashtests, fazem sexo com mulheres traumatizadas e/ou mutiladas em acidentes, destroem carros, fantasiam a morte de cada um e dos que estão ao redor, acelerando ou amortecendo a velocidade de suas mentes por meio de haxixe, ácido lisérgico - e muita gasolina. Na paixão pela máquina, a dupla cria um evangelho do desejo. Os mais esquisitos pormenores são associados a uma miríade de fetiches sexuais; entre as dezenas de atos sexuais narrados, poucos não terão como cenário - ou protagonista - um automóvel. 'Para Vaughan, os menores detalhes de design e estilo tinham uma vida orgânica tão plena de significado quanto os membro e os órgãos sensitivos dos seres humanos que dirigiam aqueles veículos.' O autor tem um olho irônico para a agonia da sociedade de espetáculo (isso já nos anos 1970), reafirmando que a realidade só pode ser alcançada mediante sua estilização, sua transformação em matéria voyeurística. Numa das cenas mais impactantes - e como não notar, hilariantes - do romance, num lava-rápido Ballard vê Catherine transar com Vaughan no banco de trás: 'Fiquei sentado em silêncio no banco da frente enquanto o sabão branco escorria pelas capotas e pelas portas como um véu líquido. Atrás de mim, o sêmen de Vaughan reluzia nos seios e no abdome da minha mulher.' Como Bataille, que n'A História do Olho associa partes e funções do corpo humano à Natureza (a urina é relacionada ao relâmpago, a menstruação à Lua, etc.), em Crash Ballard atrela a matéria fria do automóvel ao corpo: 'Via o interior do carro como um caleidoscópio de pedaços iluminados dos corpos das mulheres.' Fonte: Estadão Resenha escrita por Ronaldo Bressane, autor de Céu de Lúcifer (Azougue) e redator-chefe da Trip |




