Início discos Wolfmother
Wolfmother PDF Imprimir E-mail
Escrito por Douglas Rodrigues   
Ter, 21 de Novembro de 2006 16:20

alt

 

Falar que a banda australiana Wolfmother é o "novo Black Sabbath" pode ser repetitivo - porque quase todo mundo está fazendo isso. Na verdade, o grupo pré-metal liderado por Ozzy Osbourne pode até ser uma das grandes referências de Andrew Stockdale (vocais, guitarra), Chris Ross (baixo/órgão) e Myles Heskett (bateria). Mas quase todos os sons não-recomendáveis para pessoas simpáticas dos anos 60 e 70 entram na lista de referências. E isso mesmo com o fato de "Dimension", uma das melhores músicas do CD, citar "Black Sabbath", faixa de abertura de Black Sabbath, primeiro LP do Black Sabbath (quanto Black Sabbath!) até no refrão - que é igualzinho ao do original, até no final com um “ooooh, yeeaaah” doidaralhaço.

Wolfmother, primeiro disco dos caras (Interscope/Universal), é uma aula de rock sujo, garageiro, pré-metal como se o próprio, além do punk ainda não tivessem sido inventados. A qualidade de gravação é de disco lançado em 2006, mas a sonoridade vem de riffs e instrumentos de época - órgãozinhos vagabundos, guitarras sujaças, tons psicodélcos etc.

 

alt

 

Andrew Stockdale mantém a linha dos vocalistas gritalhões, sem preocupações maiores com afinação. Chris Ross, por sua vez, volta no tempo e recoloca no mercado a figura do baixista-tecladista, algo que está no inconsciente coletivo roqueiro dos anos 60 - Led Zeppelin (John Paul Jones), Doors (Ray Manzarek), Mutantes (Arnaldo Baptista) etc - e que aqui volta com baixos distorcido e intervenções quase eruditas de órgão, com pedal. O que vem à cabeça é imediatamente bandas lisérgicas e estridentes como o Iron Butterfly. Ou o som de macho do Deep Purple.

Dizem por aí que ficar citando referências demais torna uma resenha chata - como se o jornalista ficasse tentando achar motivos para não achar uma banda original. Só que o fato de bandas como os californianos psicodélicos do Blue Cheer, por exemplo, baterem ponto no som do Wolfmother, torna a audição de seu primeiro disco bem mais interessante, um bom contraponto às modernidades de hoje. A comparação com Doors nem soa fútil - Andrew Stockdale estreou na guitarra tocando flamenco (Robbie Krieger, guitarrista dos Doors, também tinha predileção por células rítmicas "esquisitas" em se tratando de rock) - e bandas como MC5 e até Jethro Tull também surgem no som do trio.

Desatrelados de qualquer cena moderna (segundo Stockdale, o grupo é meio outsider até mesmo em sua terra natal), os caras do Wolfmother talvez até passem batidos em meio a tantas bandas novas. Não há nada do esquema certinho de boa parte dos grupos atuais, fora que parece que no trio ninguém ouviu Gang of Four ou Pixies.

Falando das músicas: Wolfmother é uma suadeira de riifs mal-educados em faixas como "Apple tree" (com sujeira quase punk), "Joker and the thief" (outra das que lembram o Black... chega!) e "Mind's eye". Sem falar nos discretos acentos progressivos em músicas como "Where eagles have been" e "Tales from the forest of gnomes", além do solinho de flauta da diabólica "Witchcraft", som apocalíptico como há muito não se via no rock. Outra grande aposta para hit é a melancólica "White unicorn".

A pesada "Woman" ensina a lição que qualquer garota adolescente que faz aulas de jazz sabe: o rock veio de um gênero há muito esquecido, chamado fox - reabilitado por bandas como Led Zeppelin ("How many more times"), Kiss ("Detroit rock city") e até mesmo o Soundgarden (em algumas músicas do Badmotorfinger, grande referência anos 90 para se entender o Wolfmother). No mais, se você curte bandas de stoner rock - como o Queens of The Stone Age - prepare-se para amar esse trio.

Resenha por: Ricardo Schott pra o e-zine Nitideal.