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Entrevista sugada da Revista Bizz de julho de 2006, com João Gordo (Ratos de Porão), Marcelo Nova (Camisa de Vênus), e Beto Bruno (Cachorro Grande), tendo como tema: The Drugs. João Gordo: “Lembro uma vez em que eu era bem moleque e tinha uns caras na frente da casa da minha avó fazendo samba e fumando maconha. Eu devia ter uns seis anos de idade. Fui falar para o meu pai. Ele ligou para a polícia e os caras foram em cana. Depois, ele pegou um carocinho daqueles fumos bons dos anos 70, com uma cor meio verde-abacate. Era verdinho mesmo. Ele me mostrou e disse: ‘não tenha medo’ (ri)”. Marcelo Nova: “Beatles e Rolling Stones foram minhas maiores influências. Eles eram meus Menudos. Quando ouvi ‘Lucy in the Sky with Diamonds’ eu tinha 16 anos, lia Timothy Leary, tinha curiosidade. Aos 16 eu tinha ouvido falar nas drogas, aos 18 estava usando”. Gordo: “Eu comecei por causa do punk, né? Primeiro você começa a fumar cigarro. Depois eu li numa revista – tinha uma chamada Sniffing Glue – que os punks cheiravam cola e tomavam flocos de milho com cerveja. Isso lá pelos meus 13 anos. Aí eu falava pra minha mãe que ia estudar e ia para a matinê de punk rock. Tocava um pouco de tudo, Stooges, Kiss, AC/DC, e lá foi a primeira vez que eu ouvi falar a palavra ‘baseado’. Fiquei parado imaginando o que poderia ser. Mas foi no início dos anos 80, quando fui morar no interior, que experimentei maconha, benzina, lança-perfume. No interior não tem muito o que fazer, então os caras enchem a lata. Pouquíssima gente fumava maconha, tinha uma cultura da bebida mesmo. Hoje em dia a coisa está mais pesada, rola farinha direto. São outros tempos”. Beto Bruno: “Pó é a coisa mais careta do mundo. Todo mundo acha que aquela bagagem de sexo, drogas e rock’n’roll vai junto contigo pra todos os lugares. Já botaram cocaína na nossa cara várias vezes, porque as pessoas meio que cobram isso”. Nova: “Mick (Jagger), Keith (Richards) e Marianne (Faithfull, na época namorada de Jagger) estiveram em Arembepe (Bahia) em 1968 e voltaram para Inglaterra e Estados Unidos falando que no Brasil existia um paraíso tropical. Então todos os malucos começaram a ir para lá. O roadie do Jefferson Airplane (banda de rock psicodélico formada em 1965 em São Francisco) apareceu com 500 ácidos numa sacolinha e eu consegui dois. Chamava-se Purple Haze, puríssimo. Isso foi no início da popularização do ácido, porque depois todo mundo começou a tomar e perdeu-se a qualidade da coisa”. Nova: “Dos 18 aos 22, foram quatro anos de batalha árdua, fui ao inferno e voltei. Mas me recusei a ficar no purgatório. No purgatório tem um telão com a programação do SBT passando 24 horas por dia. Paguei o preço da curiosidade, da pouca idade. Foi uma experiência muito intensa, reveladora. Uma experiência complexa que traz no seu bojo o prazer e a dor lado a lado”. Gordo: “Eu só fui usar cocaína mesmo em 83. Até então a gente fumava maconha, tomava cachaça e bola. Cocaína era droga de rico. Mas aí, na época do Napalm, começamos a ter contato com a new wave, com gente viajada, outra classe social. Foi quando conheci o ácido também. Primeiro eu só chapava no fim de semana, depois passou a ser todo dia. Quando a loja Punk Rock mudou para a rua Augusta, eu tomava dois, três, cinco Inibex (tipo de anfetamina) de uma vez antes de sair da minha casa no Tucuruvi, ia na padaria, tomava uma pinga e viajava uma hora e meia no ônibus elétrico. Chegando lá encontrava os amigos e passava o sábado inteiro assim. Depois caía para a balada. Era época do Madame Satã e começou a rolar até um comércio de ácido entre nós. Um microponto fabricado na USP. A balada ia de quarta a domingo, depois nego passava a segunda e a terça convalescendo. Na época, entre 85 e 86, tomei muito baque também. Todo mundo teve hepatite C, mas eu escapei. Pelo menos eu usava seringas descartáveis”. Beto Bruno: “Duas vezes eu perdi o controle (com cocaína). Era ela quem estava me usando. Era muito cara e de má qualidade. Porque hoje em dia é diferente dos anos 80. É triste ver os caras entrando e saindo do banheiro nas baladas de 15 em 15 minutos com aquela cara. A cocaína está no nosso meio, mas é foda quando as pessoas querem ser amigas e te procuram oferecendo drogas. Vai fazer amizade de outro jeito! É normal chegar numa cidade e os ‘magrão’ ficarem em cima dizendo que têm tudo o que a gente quiser. O nosso baixista, por exemplo, nunca cheirou. Ele morou na Europa, já viu de tudo e nunca teve coragem. E, depois, o sujeito nem levanta o pau. Qual é a diversão? Meio que estraga a noite, sabe?” Nova: “Perdi amigo. Mas nunca me orientei pelos outros, sempre fui o timoneiro do meu próprio barco. Tive a consciência de que estava perdendo a capacidade de me manter íntegro, senti medo. E o medo é uma sensação poderosíssima. Talvez eu tenha tido sorte”. Beto Bruno: “Acho que o álcool pode atrapalhar mesmo. Na hora do show tomar uma cervejinha é do caralho, porque o trabalho já está feito e você só vai lá apresentar. Mas enquanto está compondo ou ensaiando é ruim. Para fazer o nosso segundo disco (As Próximas Horas Serão Muito Boas), a gente bebeu em todas as etapas. Costumo dizer que o encarte do álbum tem cheiro de uísque. Eu até gosto, mas aquilo é rock de bêbado. Estávamos em uma fase difícil, tipo ‘quero ser os Rolling Stones’. Hoje quando escuto o disco novo (Pista Livre) acho o som mais legal. Sem beber, a gente consegue ficar de oito a dez horas produzindo. Com bebida os interesses mudam. Rola briga, e tem uns que ficam muito chatos. Da banda ali eu sou um dos que mais bebem, mas tive o ‘start’ de tentar fazer as coisas sem o álcool. Fizemos uma experiência e hoje todo mundo concorda. Chegou uma hora em que eu falei: ‘vamos gravar os melhores discos da nossa vida”. Até então nunca tínhamos tido um super estúdio, então quando rolou resolvemos aproveitar ao máximo as horas que a gente tem. Tomar um chopinho depois da gravação é maravilhoso. E antes de entrar no palco, porque ajuda a descontrair e cria uma troca maior com o público, porque as pessoas que estão no show geralmente estão bêbadas. Agora, o que eu mais gosto mesmo é que nenhum dos cinco músicos da banda usa cocaína”. Gordo: “O auge foi entre 1995 e 2000. Pintou o ecstasy e bateu na heroína. Durante as turnês na Europa a nossa banda era como os Freak Brothers de verdade. O speed faz parte da cultura na Espanha. Na primeira vez nós não sabíamos usar, e ficamos um mês sem dormir. Ainda bem que passou. Em janeiro de 2000 tive um problema no pulmão e fiquei a ponto de morrer. Estava usando heroína, tomando “e” e fumando três maços de cigarro por dia. Pesava 210 quilos. Foi um colapso total. Hoje em dia, se for comparar, eu virei um anjo. O objetivo hoje é viver mais, ficar com os filhos. Não tem lugar pra esse tipo de balada na minha vida. Até pela fase do crack eu passei. Em 1990 uma amiga ensinou a gente a fazer. É claro que rolaram vários problemas. Tive de mandar músico pra fora da banda”. Beto Bruno: “Não existe fumar um para fazer uma música. Influencia na maneira de pensar, mas às vezes você compõe e quando vai ouvir depois acha uma merda. A maconha me deixa mais centrado quando eu sento no meio das duas caixas de som, mas na hora da criação atrapalha um pouco. Sei de gente que só consegue fazer música drogado, mas daí tem que ficar chapado o tempo todo. Não existe isso de falar ‘agora eu vou ter uma idéia’. Dizem que, no primeiro disco, os Mutantes não conheciam nem maconha. Eles só foram tomar ácido na época do Jardim Elétrico”. Gordo: “Tem muita música do Ratos de Porão que foi feita à base de álcool, maconha, cocaína. Tem gente que fala pra mim: ‘você só faz música boa quando tá fudido’. Quando fui fazer o disco novo (Homem Inimigo do Homem) não tinha idéia nenhuma do que escrever. Mas em um mês consegui fazer 11 faixas à base de suco Ades e quibe de soja. Talento eu tenho, sacou? Tem uns errinhos no disco que um produtor fudidão não deixaria passar, mas está muito bom. É ódio puro”. Nova: “Não esquecendo que fui minha própria cobaia. Porque não existe literatura a respeito no Brasil. Os pais dos adolescentes acham que maconha é igual a cocaína que é igual a heroína. Não tem informação específica sobre o assunto. Tem comercial de tevê dizendo que droga mata, mas carro também mata. Tem que acabar com essa hipocrisia”. Gordo: “Acho que toda droga deveria ser legalizada, porque só assim acabaria o tráfico. A maconha foi demonizada pelos americanos. Porque ela é uma das plantas mais completas: serve como combustível, para fazer roupa, curar doenças e ainda dá um barato. Mas sou contra drogas químicas. A cocaína e o tabaco são os maiores inimigos do homem”. Nova: “Meu posicionamento é o mesmo de sempre. Quando você pensa em falar com uma multidão, o que é bom para um não é bom para outro. Cada organismo é diferente. Fumar um baseado pode me dar vontade de ouvir Hendrix, mas outra pessoa pode querer sair berrando pela rua. Se houvesse uma literatura que explicasse aberta e claramente sobre os efeitos e dosagens, ajudaria a decidir se vale a pena ou não. Quando tive minha experiência, vi que era muito mais do que qualquer coisa que já tinham me falado. Isso me rendeu uma música, “Quando eu Morri”, lançada em 1989 no disco “Panela do Diabo”, com o Raul Seixas. Foi escrita 16 anos depois, e fala basicamente sobre essa experiência vívida e sensitiva que eu passei”.
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